FILOSOFIA DO DIREITO, HERMENÊUTICA JURÍDICA E CÁTEDRA LUÍS ALBERTO WARAT
Apresentação
Pautado no tema central “Constituição, Processo e Justiça Social, o papel da
jurisdição constitucional na efetivação de direitos” o IX Encontro Virtual do Conpedi
abriu espaço e fez um convite para reflexões sobre a função do direito e das
instituições.
Nessa toada, a comunidade jurídica atendeu este chamado e vultoso número de
trabalhos foram inscritos para o evento. Assim sendo, os artigos aprovados para as
apresentações e debates nos Grupos de Trabalho (GT) representam relevantes
pesquisas vinculadas à Ciência do Direito.
A presente publicação, nesse contexto, é composta pelas pesquisas que foram
apresentadas e debatidas no Grupo de Trabalho intitulado “Filosofia do direito,
hermenêutica jurídica e cátedra Luís Alberto Warat”, quais sejam:
A GRAMÁTICA RELIGIOSA DA CONSCIÊNCIA: PLURALISMO E CAPTURA
HERMENÊUTICA NO CONSTITUCIONALISMO BRASILEIRO dos autores Michael
Lima de Jesus, Alice Sophia Franco Diniz e Noemi Duarte Silva. O artigo analisa a
interpretação do art. 5o, VI, da Constituição Federal, sustentando que a liberdade de
consciência tem sido reduzida à liberdade religiosa na tradição constitucional
brasileira. Defende, por fim, a autonomia da consciência como espaço de
autodeterminação existencial e fundamento indispensável para a livre adesão às
convicções individuais.
A IMPORTÂNCIA DA INTERDISCIPLINARIDADE COMO MECANISMO
REGULATÓRIO DAS FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: ANÁLISE A
PARTIR DA TEORIA DE PETER HABERLE de Lucas de Faria Secarolli e Ronaldo
Fenelon Santos Filho. A pesquisa explora a necessidade de análise multidisciplinar
para a regulação legal de ferramentas de inteligência artificial. Além de examinar
propostas regulatórias em debate no Brasil e referências normativas internacionais
com destaque para o Regulamento Europeu de IA (UE 2024/1689).
A INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL COMO PROCESSO SEMIÓTICO: O
LEGISSIGNO E O MÉTODO NORMATIVO-ESTRUTURANTE – ESTUDO DE CASO
DA ADI 4277 E ADPF 132 de Rodrigo Pael Ardenghi e Junio Cezar Da Rocha Souza.
O artigo examina a interpretação constitucional a partir da semiótica sob a perspectiva
da teoria dos signos de Peirce, articulada à hermenêutica filosófica de Gadamer e ao
método normativo-estruturante de Müller. Sustenta que as normas constitucionais
resultam de um processo dinâmico de construção de sentido, concretizado nas
decisões judiciais.
DA CAUSALIDADE À IMPUTAÇÃO: BASES EPISTEMOLÓGICAS KELSENIANAS
PARA UMA DOGMÁTICA JURÍDICA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL de Alexandre
Takechi Utida, Gustavo Barbosa de Siqueira e Roberto da Freiria Estevão. O estudo
propõe fundamentos epistemológicos para a estruturação de uma Dogmática Jurídica
da Inteligência Artificial (IA) com base na Teoria Pura do Direito de Hans Kelsen.
Defende que a regulação deve incidir sobre a conduta dos agentes humanos
responsáveis pelos sistemas de IA, e não sobre sua arquitetura técnica.
DA CIÊNCIA DO DIREITO ÀS CIÊNCIAS JURÍDICAS: UM NOVO MODELO PARA
PENSAR A CIENTIFICIDADE DO CONHECIMENTO JURÍDICO de Horácio
Wanderlei Rodrigues. O artigo questiona a concepção unitária de “Ciência do Direito”
e propõe uma classificação plural das Ciências Jurídicas. A partir de revisão crítica da
literatura filosófica e epistemológica, identifica seis modalidades científicas com
objetos, métodos e finalidades distintos, que formam sistema plural e independente.
DA IDENTIFICAÇÃO ESTÁTICA À IDENTIDADE DINÂMICA: A TUTELA DO "MODO
DE SER MORAL" E O “VIR-A-SER” NA PÓS-MODERNIDADE de Nadia Cristina
Tavares Moreno e Marcus Geandré Nakano Ramiro. O estudo analisa a proteção
jurídica da identidade subjetiva como direito fundamental da personalidade na pós-
modernidade. Sustenta que a redução da pessoa à identidade-dado pode gerar
exclusão e sofrimento ético-político. Defende que o Direito promova a individuação e
a proteção do livre desenvolvimento da personalidade.
DECIDIBILIDADE E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UM LOCUS DE BORDA INFINITA
de Jussara Suzi Assis Borges Nasser Ferreira e Alexandre Magno Augusto Moreira.
O artigo investiga o impacto da inteligência artificial generativa na linguagem das
decisões judiciais sob a perspectiva da hermenêutica crítica. Analisa os desafios
impostos ao princípio da centralidade da pessoa humana, especialmente à luz da
Resolução CNJ no 615/2025.
DILEMAS MORAIS, RESÍDUO MORAL E OS LIMITES DA RESPOSTA CORRETA
NO DIREITO de Cesar Bisol e Andrielle Barboza Bernart. O estudo analisa como
dilemas morais trágicos desafiam a tese da resposta correta e a integridade do
sistema jurídico. Demonstra, com base em Dworkin, Lariguet e Bernard Williams, que
certas decisões geram perdas morais inevitáveis não absorvidas pela justificação
jurídica.
ENTRE O JUIZ HÉRCULES E O ALGORITMO: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A
CRÍTICA HERMENÊUTICA DO DIREITO de Roberto Carlos Bellini. O texto discute
os limites da inteligência artificial (IA) na interpretação do direito a partir da Crítica
Hermenêutica do Direito (CHD) de Lenio Streck e da teoria de Dworkin. Argumenta
que sistemas algorítmicos operam por padrões estatísticos e não realizam a
interpretação exigida pela prática jurídica. Conclui que a incorporação da IA deve
preservar a dimensão hermenêutica do direito.
EPISTEMOLOGIA DA PROVA E FORMAÇÃO DA CRENÇA NA DECISÃO JURÍDICA
de Maria Miracelia Farias de Oliveira Rocha. O estudo examina a formação das
crenças judiciais sobre fatos juridicamente relevantes sob a perspectiva da
epistemologia jurídica. Analisa o papel das presunções e dos critérios de racionalidade
na valoração da prova e no controle de erros cognitivos. Defende decisões
fundamentadas em critérios inferenciais explícitos e compatíveis com as garantias
processuais.
FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE RENDA MÍNIMA:
UM OLHAR SOBRE OS CLÁSSICOS de Fabiana Curty Herculano, Jardel Goncalves
e Gabriela de Souza Bastos Silva. O artigo investiga os fundamentos filosóficos das
políticas de renda mínima a partir das concepções clássicas de justiça, igualdade,
liberdade e dignidade. Além de analisar sobre contribuições de pensadores como
Platão, Aristóteles, Hobbes, Rousseau, Montesquieu e Kant para o debate
contemporâneo.
LOGOSPIRATARIA JURÍDICA E PODER EXECUTIVO NA AMAZÔNIA: RETÓRICA
AMBIENTAL, DESMANTELAMENTO INSTITUCIONAL E ESVAZIAMENTO DO
DIREITO (2019–2022) de Thiago Smith De Souza, Raimundo Pereira Pontes Filho e
Daniel de Souza Binda. O estudo analisa a logospirataria (a partir do conceito de
Raimundo Pereira Pontes Filho) jurídica na Amazônia com foco na atuação do Poder
Executivo federal, durante o período de 2019 a 2022. Demonstra como discursos e
práticas institucionais esvaziaram o sentido jurídico dos fatos e favoreceram
retrocessos socioambientais.
MEDIAÇÃO ECOLÓGICA EM CASOS DE SUBTRAÇÃO INTERPARENTAL
INTERNACIONAL DE CRIANÇAS de Magda Helena Fernandes Medina Pereira e
Leonel Severo Rocha. O artigo examina a mediação ecológica de Luis Alberto Warat
como instrumento para a transformação de conflitos envolvendo subtração
interparental internacional de crianças. A partir de uma abordagem metodológica
pragmático-sistêmica, analisa os desafios das chamadas famílias globais.
NEUTRALIDADE VERSUS IDEOLOGIA NA CIÊNCIA JURÍDICA: POSITIVISMO,
CRÍTICA E HERMENÊUTICA de José Antonio Assad e Faria Júnior. O estudo discute
os limites da neutralidade científica no direito a partir da Teoria Pura do Direito de
Hans Kelsen. Analisa críticas formuladas por Michel Villey, Pierre Bourdieu, Edgar
Morin, Boaventura de Sousa Santos e Luis Alberto Warat que evidenciam os
condicionamentos históricos, sociais e hermenêuticos da produção jurídica.
O PARADOXO INCLUSÃO/EXCLUSÃO DOS NEURODIVERGENTES COMO
PROBLEMA DE FILOSOFIA DO DIREITO, ANALISADO PELO DIÁLOGO ENTRE
LUHMANN E RESTA de Rafael Stefanow Bonotto. O artigo investiga o paradoxo da
inclusão e exclusão de pessoas neurodivergentes sob as perspectivas da Teoria dos
Sistemas de Luhmann e da Metateoria do Direito Fraterno de Eligio Resta. Demonstra
que as estruturas jurídicas atuais ainda reproduzem exclusões e invisibilizam perfis
neurodivergentes não hegemônicos.
PRÁXIS JURÍDICA HUMANISTA, MEDIAÇÃO E ALTERIDADE: CONTRIBUIÇÕES
DE LUIS ALBERTO WARAT PARA O ACESSO À JUSTIÇA de Juliana de Oliveira
Sampaio Souto Queiroga e José Alexandre Ricciardi Sbizera. O estudo analisa
criticamente a formação jurídica brasileira diante da crescente valorização dos
métodos autocompositivos. Defende a mediação, com base nas contribuições de Luis
Alberto Warat, como prática humanizadora e instrumento de acesso à justiça. Propõe
a inclusão obrigatória de práticas supervisionadas de mediação e conciliação nos
cursos de Direito.
UBERIZAÇÃO E VIGILÂNCIA ALGORÍTMICA: UMA ANÁLISE FILOSÓFICA DO
CONTROLE DIGITAL NAS RELAÇÕES DE TRABALHO de Marcelo Toffano e Laura
Gonçalves Scandiuzzi. O artigo examina as formas contemporâneas de vigilância e
controle no trabalho mediado por plataformas digitais. Demonstra, com base teórica
no panoptismo de Foucault, o capitalismo de vigilância de Zuboff e a psicopolítica de
Byung-Chul Han, como algoritmos reproduzem mecanismos sofisticados de
monitoramento e disciplinamento.
UMA ANÁLISE CRONOLÓGICA DOS ARTIGOS DE LUIS ALBERTO WARAT NA
REVISTA SEQÜÊNCIA ESTUDOS JURÍDICOS E POLÍTICOS (1980-1996) de Yuri
Angelo Baggio Mittasch Fávaro e José Mauro Garboza Junior. O estudo analisa a obra
de Luis Alberto Warat como crítica epistemológica ao direito moderno e ao “senso
comum teórico dos juristas”. Propõe uma epistemologia crítica fundada na política, na
psicanálise e na estética para compreender o fenômeno jurídico.
VIOLÊNCIA DE GÊNERO E COLONIALIDADE: UMA ABORDAGEM DECOLONIAL
CRÍTICA de Gabrieli Ferreira Lacerda e Phazzira Matos do Amaral. O artigo aborda a
violência de gênero como fenômeno estrutural vinculado à colonialidade do poder, do
saber, do ser e do gênero. Fundamentado nas concepções de Aníbal Quijano, María
Lugones, Walter Mignolo, Boaventura de Sousa Santos e Raquel Coelho de Freitas,
defende que o enfrentamento da violência exige o reconhecimento de saberes
historicamente marginalizados.
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E O CONTRATO SOCIAL: A EXCLUSÃO DAS
MULHERES NO PACTO FUNDACIONAL DA SOCIEDADE de Phazzira Matos Do
Amaral. O estudo analisa a exclusão das mulheres das teorias clássicas do contrato
social de pensadores como Hobbes, Locke e Rousseau e seus reflexos na
organização política e jurídica contemporânea. Apoiado na teoria do contrato sexual
de Carole Pateman, demonstra a persistência de estruturas patriarcais que limitam a
cidadania feminina.
ISBN: 978-65-5274-576-7
Trabalhos publicados neste livro: